O “ANTÓNIO”
Um destes dias encontrei na minha caixa de correio um bilhete com o seguinte conteúdo “Se tiver roupas para deitar fora, por favor, dê-me. O meu telefone é XXXXX. Assinado: António”
Parei para pensar e questionei-me: quantos “antónios” não existirão na nossa Terra? E no nosso País?
Os dados oficiais apontam para a existência de dois milhões de pobres em Portugal. Ou seja, um quinto dos portugueses vive com menos de 360 euros por mês. E os mais afectados são os idosos e famílias com mais filhos.
As estatísticas referem ainda que, sem as pensões de reforma e as transferências sociais do Estado, mais de quatro milhões de portugueses estariam em risco de pobreza.
Tudo isto coloca Portugal na lista negra dos países com uma taxa de pobreza superior à média europeia de 16 por cento e o país da UE onde o fosso entre ricos e pobres é maior.
A conclusão é óbvia. A classe média portuguesa tende a desaparecer.
Por contraponto, surge uma nova classe social já denominado de “novos pobres”.
Os “novos pobres” são pessoas que têm emprego e recebem salário, mas cujo rendimento não dá para satisfazer as necessidades da família.
São pessoas que se não se atrasavam a pagar as despesas fixas como mensalidade da casa, água, luz, gás, electricidade ou até as creches dos filhos e que agora se atrasam sistematicamente porque o dinheiro já não chega.
Nesta categoria incluem-se muitos casos de trabalhadores a recibos verdes, outros trabalhadores afectados pela precariedade do emprego, pessoas que contraíram créditos bancários sem capacidade para os saldar, ou ainda, jovens e realojados que não têm condições mínimas de vida.
Os “novos pobres” são homens e mulheres que sofrem em silêncio, ainda mal refeitos do choque que representa perderem um emprego ou o esboroar de um estilo de vida que se julgava conquistado.
Hoje somos confrontados diariamente com dramas pessoais e familiares que dificilmente poderíamos imaginar. São dramas que as estatísticas nem sempre revelam, mas que nos vão alertando para a dimensão social que a actual crise económica e financeira tem vindo a assumir
Os estudos de organizações internacionais revelam que Portugal possui uma estrutura social muito frágil, com níveis de coesão muito baixos: desigualdades acentuadas na distribuição do rendimento, elevada taxa de risco de pobreza, baixos níveis de escolarização e um inegável deficit de oportunidades que favorecem a ascensão social dos grupos mais desfavorecidos ou mesmo socialmente excluídos.
Os períodos de crise económica tendem a acentuar as vulnerabilidades sociais, principalmente porque aumenta o número daqueles que, tendo usufruído de uma posição de algum desafogo económico, vêem-se, de um momento para outro, caídos numa situação de desemprego, de endividamento excessivo e, porque não dizê-lo, de fome e carência alimentar.
Com a crise social em que estamos mergulhados, eu pergunto: quantos “antónios” não haverá bem perto de cada um de nós?
E, já agora, o que é que cada um de nós poderá fazer pelo António?
Seguramente muito!
[Editorial PRAÇA PÚBLICA, 22 de Abril de 2009]
Data: 23 de Abril de 2009 em Opinião.
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